O TDAH (Transtorno de Déficit de atenção e Hiperatividade) já não pode mais ser compreendido apenas como um transtorno de “desatenção” ou “hiperatividade”. A literatura mais recente em neurociência e psiquiatria/psicologia vem demonstrando que o transtorno envolve alterações amplas em funções executivas, regulação emocional, monitoramento cognitivo, inibição comportamental, processamento motivacional e organização temporal da experiência subjetiva.
Em adultos, especialmente em indivíduos com Altas Habilidades, funcionamento compensatório elevado ou carreiras cognitivamente complexa, como executivos, profissionais de tecnologia, médicos, empresários e profissionais criativos, os sintomas podem permanecer mascarado por anos.
Na adolescência, o TDAH pode não aparecer apenas como agitação ou desatenção evidente. Muitas vezes, ele se manifesta como dificuldade crescente de autonomia, queda no rendimento escolar, desorganização da rotina, procrastinação intensa, esquecimento de tarefas, impulsividade emocional e dificuldade para sustentar planejamento de médio e longo prazo.
É comum que adolescentes com TDAH sejam vistos como “preguiçosos”, “desinteressados”, “imaturos” ou “sem disciplina”, quando na verdade podem estar enfrentando dificuldades importantes em funções executivas, como planejamento, inibição de impulsos, memória de trabalho, controle emocional, organização temporal e autorregulação.
Alguns sinais clínicos frequentes incluem dificuldade para iniciar tarefas, estudar apenas sob pressão, perder prazos, alternar entre hiperfoco e desmotivação, ter explosões emocionais, irritabilidade, sensação de fracasso, baixa autoestima e conflitos recorrentes com pais e professores.
Muitas dessas pessoas não apresentam a imagem estereotipada do TDAH “hiperativo”. Pelo contrário: frequentemente são pessoas intelectualmente ativas, mas que vivem às custas de urgência crônica, hipercompensação, sobrecarga mental e um funcionamento sustentado por estresse contínuo.
É comum observar:
-dificuldade persistente de transformar potencial em consistência
-procrastinação paradoxal
-hiperfoco desregulado
-oscilação entre alta produtividade e colapso
-sensação subjetiva de caos mental
-dificuldade de iniciar tarefas simples
-impulsividade emocional
-exaustão cognitiva
-desorganização temporal
vergonha e sensação de inadequação apesar da competência objetiva.
Hoje compreendemos que déficits em funções executivas, ou seja, especialmente memória operacional, inibição, planejamento, flexibilidade cognitiva e autorregulação, como parte constituem parte central do funcionamento do TDAH.
Além disso, estudos recentes apontam que a desregulação emocional não é apenas uma “comorbidade secundária”, mas um componente clínico relevante do transtorno ao longo da vida.
Do ponto de vista clínico, o diagnóstico exige profundidade e cautela.
Diversas condições podem mimetizar ou coexistir com o TDAH: ansiedade crônica, burnout , transtornos do humor , TEA nível 1, altas habilidades/superdotação, trauma complexo, transtornos de personalidade , alterações do sono, estados persistentes de estresse e hiperativação fisiológica.
Por isso, em muitos casos, uma avaliação neuropsicológica aprofundada torna-se fundamental para investigar o funcionamento cognitivo e ajudar a identificar diagnósticos diferenciais.
A psicoterapia baseada em evidências possui papel central no manejo clínico do TDAH. É importante buscar abordagens contemporâneas como:Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ,Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia dos Esquemas e Neuropsicologia Clínica.
O foco terapêutico não se restringe à “redução de sintomas”, mas à reconstrução da relação da pessoa com sua própria mente.
Em muitos adultos, o sofrimento não vem apenas do transtorno em si, mas dos anos acumulados de invalidação, culpa e sensação de fracasso decorrentes de um funcionamento neuropsicológico que nunca foi verdadeiramente compreendido.
Compreender o TDAH de forma séria, profunda e baseada em ciência não significa patologizar diferenças humanas. Significa reconhecer que existem padrões neurocognitivos específicos que podem gerar sofrimento real e que podem ser tratados com profundidade clínica, estratégia terapêutica e compreensão adequada do funcionamento humano.
Referência:
Faraone, S. V. et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers, 10, Article 11, 2024.DOI: 10.1038/s41572-024-00495